Sanduiche shopping

Máscaras, álcool e a falsa sensação de segurança

João estava cansado de ficar em casa -afinal são quase sessenta dias em quarentena- e decidiu levar a família para passear e almoçar fora.

Para sair vestiram a melhor roupa e escolheram as máscaras de algodão que a própria Joana (esposa do João) havia feito para toda a família, elas foram costuradas com todas as normas de segurança e combinavam entre si. No bolso todos levavam o álcool em gel 70º.





Pronto, todos estamos seguros e podemos passear tranquilos, disse João aos filhos.

Saíram de casa felizes e realizados, afinal ficaram em casa sem qualquer contato com o mundo exterior durante o isolamento social, cumpriram religiosamente todas as regras de segurança e não se esquecerem de nada, nem mesmo de lavar todos os produtos quando chegavam do supermercado.

No início da pandemia do novo coronavírus ouviam atentamente as palavras do ministro Mandetta e nunca entenderam porque ele dizia que não era para comprar máscaras nas farmácias pois poderia faltar para os médicos e enfermeiros.

Com a demissão do ministro Mandetta o governo passou a dizer que todos poderiam sair às ruas, desde que estivessem ‘protegidos’ com a máscara e que higienizasse as mãos frequentemente.

João sempre se perguntou:

“Por que um ministro diz que as máscaras não protegem e o outro que entrou falava completamente o contrário?”

Mas hoje é sábado, é dia de passear, e de máscara, álcool em gel e lavando as mãos sempre que possível eu posso sair com a minha família em segurança. Pensou João.

Ao entrar no ônibus que os levaria até o centro comercial, João e um dos filhos precisaram ir em pé porque não havia bancos para todos. Na primeira curva um outro passageiro agarrou no João para não cair.

Chegando no centro comercial João ficou impressionado com os critérios de segurança. Fila com dois metros de distanciamento, obrigação de utilizar o álcool em gel antes de entrar e medição de temperatura de todos.

João chegou a comentar com Joana sobre os critérios de segurança em saúde e o quanto eles estariam seguros dentro do centro comercial.

Passearam, olharam algumas lojas, mas sem trabalho não têm dinheiro para compras e foram para a praça de alimentação. Ali precisaram se dividir em duas mesas pois as regras de segurança diziam que só poderiam sentar-se duas pessoas em cada mesa.

Cada um pediu um sanduíche que foi entregue -como de costume- em uma bandeja de plástico. João e a família comeram como se fosse o primeiro sanduíche de suas vidas, tamanha a vontade de voltar a ‘vida normal’. Com a boca suja de ketchup, Joana pegou o guardanapo que estava na bandeja e limpou delicadamente a boca do pequeno Joãozinho que ingenuamente deixava as batatas caírem na bandeja. O gesto da Mãe mostra o quanto ela é zelosa e tem carinho com eles.

Na sobremesa resolveram pedir sundae para todos. Ticket na mão foram eles para a fila (respeitando, claro, o distanciamento mínimo).

Um por um o atendente da lanchonete foi preparando, pegando ele mesmo na colher que ficava exposta em uma caixa cheia de colheres e entregando a família.

João, Joana e seus filhos tomaram o sorvete com uma voracidade de dar inveja. Joãozinho chegou a comentar que era o sorvete mais gostoso de toda a sua vida.

De volta para casa Joãozinho viu os meninos jogando bola na rua e pediu para ficar ali com eles. Depois de uma breve discussão, João e Joana acharam melhor que não, afinal o vírus poderia estar ali.

Ao entrarem em casa todos tiraram seus sapatos à porta e ficaram só de meias. As roupas eles tiraram logo em seguida e essas foram direto para a máquina, exceto a do Joãozinho que, emburrado por não poder brincar com os amiguinhos, sentou-se no sofá e se recusava a sair.

A noite, como de costume, todos se sentaram no sofá. Era a nova rotina de volta.

A vida seguiu em quarentena até que quatorze dias depois João queixou-se de uma pequena dor no peito e falta de ar. Joana, como sempre fez, cuidou carinhosamente de seu marido. Mas três dias depois, com febre, falta de ar e sem paladar, resolveram que era melhor procurar por uma UPA para ver o que podia ser. A princípio João xingou:

“Joana, não é nada, é apenas uma gripezinha! Nós ficamos em casa todos os dias, não posso estar com esse vírus!”

Na UPA colocaram uma pulseira vermelha no João e o levaram para uma ala de isolamento onde nem mesmo a família poderia vê-lo.

Três dias depois Joana recebeu um telefonema informando que o Sr João havia piorado e que precisaria ser entubado, mas na UPA não havia o aparelho e por isso ele seria transferido para o hospital de uma cidade vizinha.

Triste Joana pensou:

“Longe, sozinho, doente e eu aqui, sem poder fazer nada por ele. Como a vida é ingrata.”

Alguns dias depois Joana recebeu outro telefonema, mas dessa vez era a notícia que ela relutava pensar que algum dia chegaria.

“Sra Joana, boa tarde, aqui é o Dr Carlos e estou ligando para informar que infelizmente o Sr João não resistiu a Covid-19 e faleceu.”

Desolada, mas ainda de pé, Joana deu a notícia aos filhos e ouviu de Joaquim (o filho maior) a seguinte frase:

“Mãe, mas há alguns dias estávamos passeando felizes! Comemos um sanduíche e depois tomamos aquele sundae juntos. Como assim que o Papai morreu?”

Na mesma hora passou pela cabeça da Joana a seguinte dúvida: “É mesmo, onde será que ele pegou o Covid-19?”

“Será que foi no ônibus? Mas ele tirou toda a roupa quando chegou em casa. Será que foi no centro comercial? Mas lá eles tomaram todos os cuidados para deixar a gente entrar. Então onde foi?”

Joana não se lembrou da bandeja do sanduíche, do guardanapo que retirou da bandeja e limpou a boca de todos, da batata frita que teimava em encostar na bandeja, do copo do sundae e principalmente daquela colher que o atendente lhe entregou junto com o sorvete e que inocentemente foi direto à boca.

Também se esqueceu que Joãozinho, ao chegar em casa emburrado, não aceitou retirar a roupa que havia encostado na cadeira do centro comercial, na mesa e no banco do ônibus e ficou sentado no sofá até a noite quando toda a família se reunião para assistir a novela.

Ela se esqueceu dos riscos ocultos que a falsa segurança nos dá. Seja na rua, no supermercado, no ônibus, na lanchonete, no restaurante, na padaria ou em qualquer outro lugar, é preciso estar atento e não pensar que estamos protegidos da COVID-19 por usarmos máscara e álcool em gel.

A vida é uma caixinha de surpresas e prega peças que na maioria das vezes acontece quando a segurança nos ilude.

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